Qui, 03 de maio de 2012, 12:54

Entrevista com o Profº Dr. Wellington Barros da Silva
Entrevista com o Profº Dr. Wellington Barros da Silva

A Educação Farmacêutica no Brasil: desafios e propostas para o nosso estado#IMG#


LEPFS: O que é Farmácia Social?


Wellington: A expressão "Farmácia Social" refere-se a um campo disciplinar ou área de introdução recente no país. Por analogia da tradição anglo-saxã, onde esta área primeiramente se estruturou, podemos identificar alguma similaridade com a temática abordada no ensino e na pesquisa farmacêutica em nosso país sob o rótulo de Assistência Farmacêutica; porém o seu escopo é mais abrangente do que esta. Como uma extensão do conceito/movimento de Medicina Social, a Farmácia Social tem como objeto o processo de uso de medicamentos na sociedade, para tanto sua abordagem vai ao encontro dos conhecimentos e vertentes das ciências sociais aplicadas. Compreendendo o fenômeno de uso de medicamentos dentro de um contexto permeado e determinado por condicionantes históricos, sociais, culturais e econômicos, ela estuda as interfaces das políticas farmacêuticas com o modelo sanitário e serviços de promoção e atenção à saúde. Da mesma forma, ela reconhece nas práticas de organização de serviços farmacêuticos, no processo de produção e na disponibilização de medicamentos, bem como na sua disseminação social voltada para o consumo, um fenômeno social que interfere na saúde do indivíduo e da sociedade.


LEPFS: Há quanto tempo você trabalha nessa área?


Wellington: Na verdade minha aproximação com esta perspectiva social da Farmácia iniciou ainda quando era estudante da graduação, principalmente pela minha participação no movimento estudantil, o qual propiciou meu primeiro contato com temas como SUS, reforma sanitária, Política de Medicamentos, Assistência Farmacêutica, Uso Racional de Medicamentos e Estudos de Utilização de Medicamentos (EUM), entre outros. Após a conclusão do meu mestrado em Tecnologia Farmacêutica, já como docente, iniciei um trabalho extensionista e de pesquisa com plantas medicinais junto à Pastoral da saúde em Tubarão, SC, mas foi em 2000 que, junto a uma colega farmacêutica, responsável pela Farmácia-Escola da instituição onde eu trabalhava que iniciamos um Projeto sobre Atenção Farmacêutica, o qual foi responsável por um movimento que fiz em direção à face clínica da Farmácia. Só que foi esta inflexão que acabou por me aproximar da Farmácia Social. Penso também que meu envolvimento com o estudo e discussão da formação de novos farmacêuticos no processo de reforma curricular, minha participação como supervisor de estágio e, sem dúvida a opção que fiz por um doutorado na área de Educação Científica e Tecnológica também foram fundamentais. Vejo-me hoje como um farmacêutico e educador em processo de transição de área, e isto é muito desafiador, mas com um impacto interessante na minha forma de ensinar e pesquisar na área.


LEPFS: E o que o motivou a buscar essa área?


Wellington: O ser humano é produto do seu entorno social e do processo histórico no qual está inserido. Como aluno vivi ´no final da década de 80 toda aquela discussão do resgate do farmacêutico para a farmácia. Achávamos, até de forma equivocada, que o farmacêutico deveria voltar-se para o medicamento...Nossa geração levou um pouco mais de dez anos para perceber que nosso foco deveria ser o indivíduo e que o medicamento na sua dimensão de processo, mais do que produto, deveria ser o foco da reprofissionalização da Farmácia. Creio que foram muitas as motivações, quase todas iniciaram ainda na vida estudantil e, de forma curiosa, todas elas aconteceram fora da sala de aula. O que reforma duas premissas: a primeira é que há nos espaços não-formais de ensino oportunidades para o desenvolvimento do conhecimento e das potencialidades do aluno e, a segunda, o curriculo formal deveria repensar o seu diálogo com esses espaços de modo a favorecer uma formação mais adequada à realidade do mundo do trabalho, futuro cenário de atuação do farmacêutico.


LEPFS: Quais os avanços dessa área no Brasil e no mundo?


Wellington: Os avanços são visíveis. Dá pra discorrer bastante sobre como era este setor no Brasil há 10 anos atrás e como estamos hoje. Houve realmente uma retomada da profissão, temos políticas farmacêuticas que fazem parte da estrutura e da organização do modelo assistencial brasileiro. A Assistência Farmacêutica, por exemplo, já dispõe de todo um arcabouço legal e consta comno item obrigatório no planejamento e na programação das ações de saúde. Há evidências claras de que a Farmácia passa por um período de reorientação profissional. Isto é notório pois trata-se de um fenômeno social que diz respeito a todas as profissões. A adaptação às novas demandas e as formas de divisão e organização social da produção e do trabalho em uma sociedade e economia em pleno processo de transição exigem profissões dinâmicas e sintonizadas com essas novas demandas. Isto significa para todas as profissões da saúde, ao que parece, uma reorientação assistencial com foto no indivíduo, na qualidade dos serviços e na custo-efetividade do tipo de serviço prestado...É neste espaço que estão criadas as condições para o avanço da Farmácia Social e das atividades que fazem parte da dimensão clínica da Farmácia no Brasil.


LEPFS: Em sua opinião, quais os principais problemas enfrentados para implementação do cuidado farmacêutico no Estado de Sergipe e no Brasil?


Wellington: Os obstáculos são inerentes ao estágio de desenvolvimento social e economico do Estado e vão desde a esfera política até à disponibilidade de recursos humanos para implantação dos serviços. Do ponto de vista político isto passa pelo fortalecimento do SUS e estabelecimento de políticas setoriais, dentre as quais na área farmacêutica, que preparem a base institucional, garantam a alocação de recursos para a estruturação de serviços e contratação de recursos humanos qualificados. Outro problema diz respeito ao contigente de farmacêuticos no estado, ainda insuficiente para atender a demanda reprimida por serviços farmacêuticos, neste ponto os cursos de Farmácia podem formar os futuros farmacêuticos com uma visão estratégica das oportunidades que se apresentam no estado de Sergipe. Outro aspecto importante, eu acho relevante ressaltar, diz respeito ao fortalecimento da corporação. O farmacêutico precisa perceber a necessidade de união da categoria em torno das entidades representativas, os órgãos de classe. Este é um passo fundamental no processo de organização e de auto-gestão do projeto profissional.


LEPFS: No Brasil, quais as perspectivas para um futuro próximo?


Wellington: Sou muito otimista com o futuro que nos aguarda. Este otimismo está fundamentado muito mais pelas evidências e pelos fatos transcorridos nos últimos dez anos. A Farmácia brasileira avançou muito em pouco tempo.


LEPFS: Quais os trabalhos que você desenvolve atualmente na UFS?


Wellington: Atualmente minha atenção está voltada para Saúde Mental e para a área de Farmácia comunitária. Oriento três alunas de mestrado e alunos de IC nestas áreas. Estamos caminhando bem no esforço de demonstrar a relevância dos seviços farmacêuticos nos Centros de Apoio Psicossocial (CAPS), tanto no aspecto logistico, como no seguimento de pacientes, principalmente no intuito de colaborar na adesão ao tratamento. Estamos também trabalho com o diagnóstico e sistematização do processo de trabalho, dos conhecimentos e habilidades do farmacêutico na área de dispensação e no aconselhamento para a automedicação responsável. O objetivo passa pelo desenvolvimento profissional em serviço dos farmacêuticos já formados e daqueles que se encontram em formação. Há ainda uma preocupação com a área de Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) articulada à implantação de serviços clínicos da Farmácia. Deste modo estou orientando uma dissertação de mestrado voltada para a gestão do risco relacionado ao suporte de nutrição parenteral associado ao uso de medicamentos, bem como colaboro com a implantação já em curso da primeira residência multiprofissional hospitalar em Sergipe como a participação de farmacêuticos, o que representa um passo importante para o desenvolvimento da Farmácia Clínica em nosso estado.

LEPFS: Qual a postura desta universidade em relação à necessidade da atualização dos currículos dos graduandos do curso de farmácia?


Wellington: A UFS tem uma posição interessante quando observamos sua movimentação em direção à formação superior em Sergipe. Houve toda uma mobilização para a ampliação de vagas e democratização do acesso das pessoas à Universidade. Isto está acontecendo inclusive no Curso de Farmácia. A ampliação do número de vagas, a criação de um novo curso no municipio de Lagarto com foco em processos de aprendizagem problematizadores como o PBL são iniciativas promissoras. Aliado a isto estamos vivenciando também o processo de revisão do nosso projeto pedagógico e da matriz curricular. Como a universidade é relativamente nova, há uma efervescência e um dinamismo que podemos e devemos utilizar para os avanços necessários.


LEPFS: Hoje o que é necessário na educação farmacêutica para acelerar o processo de mudança na UFS?


Wellington: Bom, diria que o fundamental é que tenhamos docentes apaixonados, engajados e com uma visão estratégica muito clara do que vamos construir neste estado para esta e para as próximas gerações. É imprescindível também no processo de mudança que encontremos um equilibrio entre a formação científica e o treinamento profissional dos nossos alunos. Aliás equilíbrio e ousadia são o mote da mudança. Equilibrio para gantir uma formação generalista que prepare realmente o farmacêutico, isto implica ter um foco na missão da prática profissional. O equlibrio também é necessário para projetar as mudanças, mas a ousadia do novo é o que nos moverá e ao final, daqui a 30 anos, determinará o nosso legado para a Farmácia brasileira. Também não podemos esquecer que uma universidade só tem razão de ser pelos alunos. Estes são o principal elemento motivador da essencia universitária que é a de compartilhar o conhecimento adquirido por gerações e avançar na produção do conhecimento



Atualizado em: Qui, 03 de maio de 2012, 13:05
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