Qui, 03 de maio de 2012, 12:25

Entrevista com o Profº Dr. Divaldo Lyra Jr.
Entrevista com o Profº Dr. Divaldo Lyra Jr.

A Educação Farmacêutica no Brasil: desafios e propostas para o nosso estado#IMG#


LEPFS: O que é Farmácia Social?


Divaldo: A Farmácia Social é uma ciência que estuda a relação da prática farmacêutica com a sociedade, tomando como base o referencial teórico das ciências sociais e da clínica. É uma área bastante ampla e que nas duas últimas décadas vem sendo introduzida no Currículo Farmacêutico de muitos países. Para os estudantes e farmacêuticos, o conhecimento sobre os aspectos filosóficos e históricos que dão origem e consolidam a profissão farmacêutica são fundamentais para a compreensão de uma prática voltada para o cuidado.


LEPFS: Há quanto tempo você trabalha nessa área?


Divaldo: Comecei a trabalhar em 1994, ainda estudante quando nem sabia o que era Farmácia Social, em um projeto do Conselho Regional de Farmácia de Pernambuco e do Departamento de Ciências Farmacêuticas da UFPE chamado SOS Pharma. Uma etapa deste trabalho foi realizado em favelas e tinha como meta verificar qual o papel dos farmacêuticos para a sociedade. Bom, nem precisa dizer que a visão era péssima e o quanto ficamos preocupados com o futuro da nossa profissão. No mesmo ano conheci o Concurso de Aconselhamento ao Paciente (CAP), no XVIII Encontro Nacional de Estudantes de Farmácia realizado em Natal-RN, que é uma prática simulada de atendimento criada por estudantes de Farmácia da Universidade da Flórida (EUA) em 1983 e que desde então vem sendo usada em todo o mundo. Esta simulação é muito interessante, proporciona o contato inicial com a dispensação racional de medicamentos e desperta nos estudantes a relevância da presença do Farmacêutico na farmácia. A partir de 1997 fui convidado a participar e depois a organizar vários desses CAP em Recife, Belém, São Paulo e João Pessoa (primeiro da Região Nordeste). Depois disso, comecei a ler muito a respeito dos temas e em 1999 comecei a implantar a prática da dispensação racional e da Atenção Farmacêutica na Farmácia Escola Carlos Drummond de Andrade da UFPE. No mesmo ano fui a Europa e vi o quanto o Farmacêutico era reconhecido, isto me estimulou e me levou a estudar mais sobre os temas relacionados. Em 2001 tive a oportunidade de iniciar o doutorado na área na USP, em Ribeirão Preto, enquanto era coordenador do Curso de Farmácia da Universidade Tiradentes aqui em Aracaju (SE). O momento foi importante, visto que estávamos em período de reformulação curricular e tivemos a oportunidade de introduzir disciplinas novas como Semiologia aplicada à Farmácia e Atenção Farmacêutica. Em 2002, fui morar em Ribeirão Preto onde desenvolvi a minha tese acompanhando a farmacoterapia de um grupo de idosos de uma unidade de saúde de lá. Além do contato com os idosos que sempre me ensinam muito, penso que uma das melhores coisas do trabalho foi a vivência no SUS. Ao final da tese procurei a Secretaria Municipal de Saúde e ministrei um curso de implantação da Atenção Farmacêutica para os farmacêuticos do SUS e foi ótimo, pois houve muita interação e fiz grandes amizades.


LEPFS: E o que o motivou a buscar essa área?


Divaldo: Sempre gostei da profissão e fiz estágios em várias áreas durante a graduação, mas quando participei do movimento estudantil vi e refleti o quanto o farmacêutico pode ser essencial para a sociedade. Na verdade, senti que esta era a área que mais tinha haver comigo e que poderia dar a minha contribuição social aplicando a ciência em prol do usuário de medicamentos. Afinal está provado que os fármacos causam danos em todo o mundo e que nós, nossa família, conhecidos e amigos não dispomos das informações necessárias para usá-los com efetividade e segurança.


LEPFS: Quais os avanços dessa área no Brasil e no mundo?


Divaldo: Certamente muitos farmacêuticos espalhados pelo país faziam e fazem trabalhos louváveis para o cuidado ao paciente. No entanto, acredito que a aprovação da Política Nacional de Medicamentos em 1998 e a realização da primeira oficina do Consenso em Atenção Farmacêutica possibilitaram uma série de avanços para a área. Em minha opinião isto aconteceu porque a PNM estabeleceu o norte para se estabelecer prioridades de políticas e ações voltadas para a organização da Assistência Farmacêutica. Do mesmo modo, a realização da oficina do Consenso em Atenção Farmacêutica possibilitou o encontro e a troca de informações entre os atores que desenvolvem trabalhos na área de cuidados no país (Atenção Farmacêutica, educação em saúde, dispensação). Esta oficina proporcionou o crescimento conjunto de vários centros e de uma célula mater de recursos humanos que aos poucos vem disseminando estes conhecimentos e esta prática no país. Outro fator relevante vem sendo a realização de eventos nacionais e internacionais que proporcionaram a vinda de professores e farmacêuticos estrangeiros para o Brasil, oportunizando a discussão sobre a implementação do cuidado em diferentes realidades.


LEPFS: Em sua opinião, quais os principais problemas enfrentados para implementação do cuidado farmacêutico no Estado de Sergipe e no Brasil?


Divaldo: Na verdade, acredito que a principal barreira é a falta de conhecimento por parte de estudantes e profissionais. Naturalmente as pessoas têm resistência ao que é novo, quando desconhecem ou conhecem pouco algo costumam ter dificuldade aplicar a realidade. No entanto, creio que com a introdução de algumas disciplinas como semiologia, Atenção Farmacêutica e Farmácia Clínica, e o emprego de técnicas de ensino mais reflexivas na graduação muita coisa vai mudar nos próximos anos e novos serviços farmacêuticos começarão a ser oferecidos. Com isso, os farmacêuticos que hoje se opõem ao novo certamente vão repensar suas posturas e buscar atuar de forma diferenciada. Afinal, a visibilidade que o cuidado dá tem sido importante para o reconhecimento do farmacêutico como profissional de saúde essencial para a população, em países como Estados Unidos e Japão.


LEPFS: No Brasil, quais as perspectivas para um futuro próximo?


Divaldo:Hoje, a principal perspectiva é a criação da Rede Brasileira de Assistência Farmacêutica e Vigilância Medicamentos que poderá proporcionar a formação de uma massa crítica qualificada para atender as demandas sociais do SUS e a produção de conhecimento aplicado à realidade nacional. Esta massa crítica terá conhecimento adequado e o dever ético de diminuir a distância do ensino e da Ciências Farmacêuticas da prática profissional.


LEPFS: Quais os trabalhos que você desenvolve atualmente na UFS?


Divaldo: No LEPFS trabalhamos em muitas vertentes e diferentes cenários de prática, mas o foco é o cuidado ao idoso no que concerne ao uso de medicamentos. Atualmente, os estudos vão desde o levantamento farmacoterapêutico a organização da Assistência Farmacêutica, em asilos; do manejo da farmacoterapia em unidades de saúde; da identificação de erros de medicação a Atenção Farmacêutica ambulatórios do HU; do desenvolvimento das habilidades de comunicação de estudantes de Farmácia a farmacêuticos, em farmácias comunitárias e hospitais. Além disso, estamos trabalhando para também na área de História da Farmácia.

LEPFS: Qual a postura desta universidade em relação à necessidade da atualização dos currículos dos graduandos do curso de farmácia?


Divaldo: Antes da minha chegada a UFS já tinha em seu currículo oito disciplinas no que eu chamo de núcleo curricular de Farmácia Social (Introdução à Farmácia, Assistência Farmacêutica, Deontologia e Legislação Farmacêutica, Economia e Administração Farmacêutica, Farmácia Hospitalar, Farmácia Clínica, Tópicos em Farmácia Clínica, Atenção Farmacêutica), além dos estágios supervisionados I e III. Apesar disso, os próprios alunos já pedem um novo currículo e devo propor a inclusão de disciplinas que considero essenciais para a formação dos futuros farmacêuticos sergipanos, como: Saúde Pública, semiologia farmacêutica e farmacoterapia baseada em evidências.


LEPFS: Hoje o que é necessário na educação farmacêutica para acelerar o processo de mudança na UFS?


Divaldo: Primeiramente, acredito que em todas as oito disciplinas que citei tem que ter aulas práticas aplicadas ao mundo real. Porém, atualmente sou o único professor efetivo e isso é difícil, pois acumulo outras atividades como a Coordenação do Mestrado em Ciências Farmacêuticas e da Especialização em Gestão da Assistência Farmacêutica, financiado pelo Ministério da Saúde. Portanto, tenho a convicção que precisamos urgentemente de outros docentes com formação nas áreas de Farmácia Social e Assistência Farmacêutica.Ademais, ainda não disponho de um laboratório amplo e equipado para receber alunos da graduação. De qualquer modo, estou otimista por que teremos uma vaga para docente efetivo e no próximo esperamos trazer pelo menos um professor visitante na área., inclusive com perfil diferenciado em outros campos de atuação, como educação farmacêutica, gestão, empreendedorismo e farmácia hospitalar para realmente unirmos forças e provocarmos mudanças mais efetivas. Para o próximo ano também deveremos dispor de um laboratório de ensino no novo prédio do futuro Departamento de Farmácia e estamos trabalhando para abrir a nossa farmácia escola.



Atualizado em: Qui, 03 de maio de 2012, 13:06
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